Tenho convivido com algumas crianças, demasiadamente preocupadas com os problemas que nós, adultos, lutamos para administrar. Escuto-as falando sobre a guerra do Iraque, a vida no Afeganistão, a fome e a reconstrução no Haiti, a gripe suína e outros assuntos de tirar o sono, ainda que não tenham a compreensão exata de tais temas.
Observando-as lembro da minha própria infância. Minhas preocupações eram com o albúm novo do Menudo, a prova de matemática e outros dilemas relacionados à minha vida doméstica. E voltando cada vez mais no tempo, percebo que estamos destruindo o conceito de infância que criamos.
Antes disso ( e bota antes nisso) as crianças, sem acesso às leis que as protegem, ou deveriam protegê-las, ingressavam na chamada vida adulta conforme a necessidade. Alexandre, antes mesmo de ser O Grande (e aqui cabe o ponto de vista em relação à tal "grandeza"), já estudava filosofia aos 13 anos e aos 16 comandava exércitos.
Sem querer entrar profundamente no cerne da questão, é evidente que as disparidades sempre existiram, mas de uma maneira geral, criamos um modelo comportamental de forma que as necessidades das crianças começaram a ser tratadas como um mundo à parte. Assuntos como dinheiro, fome, dificuldades e outros mais secretos como sexo, passaram a ser guardados para que somente após a passagem para a vida adulta fossem desvendados.
Esse modelo, inserido no contexto social está dia a dia indo ladeira abaixo com o indiscriminado acesso à informação pela tela da TV e muito mais pela tela do PC. E nos demonstra que a diferença entre o infante Alexandre, o Grande e nossos pequenos Alexandrezinhos espalhados pelo mundo está sob o fio da navalha.
Nossas crianças, nossas e do mundo, seguem cada vez mais cedo comandando seus pequenos exércitos particulares, seja na milícia do tráfico, seja na desesperada luta contra a pedofilia e aliciamento sexual.
E o modelo antes desejado de uma infância que contasse com o lobo mal como seu maior perigo é roubada debaixo de nossos olhos.
O GASP, há anos tenta através de suas pequenas ações minimizar os efeitos cruéis e devastadores dessa realidade. Ainda que com carência de recurso material ou humano, uma pequena ação aqui, outra pequena ali, acredita que algum suspiro de satisfação, alívio ou esperança pode ser conservado.
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